CCXXI
Soletro o tempo e tu estás lá. Não neste tempo preciso em que a insónia insurdecedora das mãos acorda o pensamento e desperta vivamente os sentidos para a saudade. Não no tempo que já passou por nós, nem no tempo que vai passar de futuro em futuro até que todos os futuros se extingam. Soletro o tempo e tu estás lá. Num tempo que existe por inteiro, por dentro de mim. Um tempo meu que aperto com força junto ao peito, letra por letra, como se o meu coração se encostasse ao teu, devagarinho, e a tua boca procurasse a minha e me beijasse, indiferente ao tempo que passa por nós, um tempo tão só meu e que tu nem sabes que existe._____________________________________________Ás de Copas___
CCXX
... inconsolável, esta dor chora.
Morre aos poucos abraçada a mim.
_____________________________________________Ás de Copas___
CCXIX
Era uma carícia em tons de madrugada. Adentrava-se em mim como uma corrente vagarosa de rios dourados percorrendo suavemente o contorno nu das margens do meu corpo. Era uma carícia limpída, como são límpidas as paixões despertas às primeiras horas de uma manhã de Primavera. Os cheiros tomados de empréstimo ao nascer do dia, e a pele, doendo de desejo e doçura, parecia queimar._____________________________________________Ás de Copas___
CCXVIII
Levantas o olhar, libertas os lábios, sorris. Não quebras o irresistivel pacto de permanecer silencioso. Olhamo-nos sem vacilar, e no entanto traímos o silêncio e desvendamos toda a cumplicidade ao evitar declará-la. Hesitamos todos os gestos. Tu e Eu. Tu perdes-te nos meus pensamentos e engoles as palavras. Eu percorro-te em todas as palavras e deixo-me ir nos teus pensamentos. _____________________________________________Ás de Copas___
Anterrosto
Lembro. O desejo. E o desejo amordaçado é noite sem fundo. Sem lua. Sem estrelas. É eco voluvél em paredes vazias. Silente e estrondoso. Ardente e gelado. É dor e contentamento. Lembro. O teu beijo dentro das minhas mãos e a vontade nos meus dedos em redor da tua boca. A ternura entregue debaixo dos nossos dedos em busca de carícias intactas nos nossos rostos. As tuas mãos a procurarem as minhas, e o doce calor antes do beijo que os teus lábios querem dos meus. Perto. Quase dentro. Os teus olhos, quase fechados, a penetrarem os meus entreabertos perdidos por dentro dos teus. E a tua boca, meu amor... A tua boca fechada no segredo da minha a murmurar que me ama... Lembro. O desejo. E o desejo amordaçado é noite sem fim, é Lua Cheia sem ti... _____________________________________________Ás de Copas___


























